Entenda o que está ocorrendo na China

O que acontece hoje com a construtora Evergrande é apenas um reflexo secundário do que acontece nos dias de hoje na China.

A corda arrebentou ali primeiro, mas provavelmente arrebentaria assim mesmo em um futuro não tão distante, pois trata-se de uma empresa altamente endividada e com fluxo de caixa comprometido.

Apesar dos 300 Bilhões de dólares de dívida da empresa, este é um problema endereçável para um país como a China que tem milhares de empresas estatais e um rígido controle governamental na economia, inclusive em seu sistema bancário, onde está concentrado direta ou indiretamente o problema.

Temos que lembrar que a China que conhecemos hoje é fruto de uma grande reforma que permitiu a abertura econômica, o que trouxe capital externo e uma revolução em processos e tecnologia.

A China nos últimos meses vem implementando uma série de medidas de caráter regulatório em vários setores, só para citar alguns casos:

(1) Foi proibido que as empresas educacionais sejam entidades com fins lucrativos;

(2) No setor de games foram implementadas diversas restrições de uso por adolescentes;

(3) Ocorreram intervenções no setor de moedas virtuais; e

(4) Foram implementadas diversas regulações no setor de tecnologia.

Temos ainda o emblemático caso de Jack Ma, fundador do portal de vendas online Alibaba, que em novembro de 2020 estava na véspera de fazer seu IPO. A empresa tinha como objetivo revolucionar o setor bancário na China, Ma discursou em uma reunião com uma fala bastante polêmica, na qual criticou o sistema financeiro chinês, foi chamado a uma reunião com o governo, depois disto o IPO de sua empresa foi interrompido e o empresário só reapareceu três meses depois.

Todas estas intervenções estatais ferem a confiança do empresário. Sem confiança um empresário não tem visibilidade do retorno de seus investimentos.

Neste momento muitos negócios na China devem estar se perguntando, quem será o próximo a ser atingido.

Em um cenário como este, o investimento cessa e as empresas que seriam beneficiadas com isto deixam de faturar e lucrar gerando assim um efeito cascata, que podem ser observando no mercado financeiro Chinês, onde todo dia o BC Chinês tem injetado bilhões no sistema, sinal de que algo não está sadio.

Por parte do investidor internacional, se este não saca o seu investimento no país, no mínimo deixa de remeter mais recursos para este mercado. Temos que considerar que o próprio investidor Chinês neste momento pode preferir por segurança enviar recursos para o exterior, o que pode levar a efeitos secundários na moeda chinesa.

Dificilmente a China terá problemas com liquidez, já que até a poucos dias ela detinha mais 3 trilhões de dólares de reservas cambiais, ou seja, um colchão enorme.

É uma questão de controle político pelo partido comunista?

É uma questão de melhorar as condições das pessoas mais humildes que não tiveram todo este ganho com o crescimento da economia chinesa?

É difícil cravar o que de fato está acontecendo, já que a China não é um país capitalista tradicional, e sim uma economia mista. Certas intervenções parecem ter este intuito de melhorar a condição de vida de parcela de sua população, outras não podem ser claramente entendidas em uma visão de curto prazo, ou da forma como nós ocidentais estamos acostumados.

Obviamente que os líderes Chineses sabiam do risco ao tomar tais medidas. O problema ao desencadear tais ações é que é impossível mapear todos os efeitos secundários, terciários e quaternários… decorrente da magnitude das decisões tomadas.

O que é certo é que o crescimento chinês será afetado e é provável que uma ou outra bolha estore no futuro, caso o nível de confiança não se restaure.

E para o Brasil quais são os riscos? Creio que o maior risco está relacionado ao preço dos imóveis, já que este é um investimento comum na China. Caso os preços dos imóveis caiam a confiança dos consumidores seria então abalada, portanto as empresas de commodities poderiam sofrer com a queda de demanda nestes mercados, já que o consumidor chinês estaria menos propenso a gastar. Neste caso poderíamos ter uma crise global, onde várias empresas de consumo que atendem os anseios dos consumidores chineses seriam afetadas.

A pergunta que fica é: serão os governantes chineses capazes de amenizar tais efeitos e restaurar a confiança dos empresários e investidores?

E se sim, quanto tempo será necessário para este restauro e quais as posturas e ações por parte dos governantes seriam necessárias?

Anderson Titz, Consultor Financeiro da Valor Executivo